segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Ibeji e a concepção de dualidade na Sociedade Iorubá


 Os processos de mutações em uma cultura são muito comum, quero dizer que o exercício de captar essas modificações que ocontecem dentro de uma determinada cultura e/ou tradição, é tema de debates e investigação dentro da antropologia. Assim como, interpretar toda essa dinâmica que nem sempre é linear, é uma tarefa de segundo plano, porque em primeiro plano somente o nativo é capaz de interpretar. Clifford Geertz um antropólogo americano da Escola de Chicago entendeu bem esse processo de interpretação, ao ponto de afirmar que a interpretação também é uma atividade de experiência, de entrar na cultura e conseguir vê-lá pelos ombros do nativo.


A cultura iorubá toma um grande território na região da África Setentrional sobretudo na região que ficou conhecida como Costa dos Escravos. A capacidade de infiltrar em outras culturas e adaptar-se, re-criar, re-inventar estar no cerne dessa tradição. O povo Iorubá é muito criativo, esbeltos, rápidos e muito inteligentes - possivelmente a própria origem dessa cultura seja a organização de uma série de outros pressupostos civilizacionais, mas isso é um assunto para outro momento.

O conceito de dualidade é muito caro às Tradições autóctones, e mesmo violadas e violentadas pelo colonialismo, a Tradição Iorubá possui uma relação muito forte com este conceito, ele é representado em seus pressupostos civilizatórios seja na arte, na literatura oral e na forma de pensar a própria estrutura de mundo - vide a cabaça, lógica geométrica do Orun e do Aiye.

O Siatema Ifá configura-se todo no princípio de dualidade binária cuja dinâmica I e II tem-se sido discutida profundamente por vários estudiosos. Trata-se o Sistema Ifá de uma ciência binária, seu fundamento científico estar no cerne da origem da física, da matemática, da química, da computação, da genética, etc. A matéria do Odu Ifá é dual, são meji (dois) - princípio gerador da vida que se presentifica em formas humanas diversas. O que odu ativa é princípio de dualidade por excelência - tudo há dois lados e duas medidas. Formas múltiplas (dual de igual maneira) de descortinar as coisas, os acontecimentos e tudo que há. Ifá revela que na constituição / criação da vida tudo que foi sendo gerado foi acompanhado do seu duplo.

Em março de 2018 logo que retornei da Nigéria após meu Idosu Sàngó, publiquei aqui um texto sobre a dualidade em Sàngó representado no seu osé (machado de dois gumes), símbolo da sua força e poder - mas sobretudo um instrumento de dualidade capaz de pontuar acerca das posssibilidades de verdade/mentira, existência e não-existência também. O existir ele mesmo se descortina em processos duais, desde a alegria, a tristeza, a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza etc. Sàngó estar no cerne desse acontecimento (do existir) uma vez que essa divindade presentifica a força da vida e do viver bem para todo ser humano.

Embora Sàngó seja um tema inesgotável, eu gostaria hoje de compartilhar a temática da dualidade em torno de Ibeji. Eu venho percebendo que as pessoas têm ficado mais no aspecto religioso da nossa rica Tradição de Ifá e Orisa e deixado de lado os aspectos filosóficos, fundamentais para os níveis de compreensão. A deficiência no uso do saber em nosso país é uma matéria crucial e isso inflige profundamente em nossas Tradições. O número de pessoas fazendo iniciações, possuindo igbas (assentamentos) de algumas divindades e tão somente reproduzindo mecanicamente aquilo que seus iniciadores lhes transmitiram, é alarmante. Acabam que os osès entram na monotonia e as pessoas acabam não produzindo a força necessária para experimentar o sagrado do orisa que se renova no pós - iniciação, no dia-a-dia da nossa relação com o orisa. Longe de mim querer ser palavra única nessa discussão, mas não me ausento também de ser também uma palavra capaz de dizer algo, aqui, sempre a partir do que venho vivendo e experimentando na minha relação com Ifá e Orisa.

Ibeji ocupa de uma série de construções e compreensões em nosso país, desde o sincretismo com São Cosme e Damião, desde a mera infatilização deles, ao ponto de ficarem em segundo plano e uma forte acentuação católica se formarem em torno deles e o conhecimento sobre os mesmo não adentrar na sociedade brasileira. Não dá pra culpa ninguém por isso, nossos antepassados tiveram muita dificuldade de tornar isso consolidado em suas comunidades até porque as pessoas não sabiam tudo e não tinham a possibilidade e a agilidade que hoje temos graça os avanços tecnológicos, a comunicação direta com sacerdotes e as trocas uns com outros de forma mais acessível.

Ibeji não é orisa, há uma confusão muito grande acerca do que é orisa e do que não é orisa, o iorubá tem muito claro isso, seja através da concepção e/ou da sua própria vivência cotidiano com o sagrado. Embora exista quem defenda a ideia de que Ibeji é um orisa - deixo a liberdade de cada um definir isso conforme seu entendimento. Ibeji é uma classe, uma categoria de Egbe, eles são também uma espécie de seres espirituais que se reúne em torno da égide ancestral da vida no Aiye e no Orun. Ibeji significa gêmeos, e eles nem sempre foram bem aceitos, o processo pelo qual eles se tornaram tão importantes na sociedade iorubá se deu a partir do momento que o povo iorubá compreendeu que se poderia nascer dois bebés dentro de uma barriga (útero).

Os homens achavam que suas mulheres estavam traindo e o que o outro filho (o segundo) não era filho dele, era filho de um outro e que deveria ser morto para que a desonra do marido não se efetivasse. Entendem que o processo de aceitação da possibilidade de duas crianças nascerem juntas, é em sim um aparato, um construto que se constituiu no decorrer do processo de aquisição do conhecimento e de assimilação de outros aparatos de vida? Pois bem, essa é uma forma para entendermos que o entendimento dos processos lineares da evolução da vida é deficiente e não cabe aqui.

O povo Iorubá é muito fértil em ter filhos gêmeos, tal acontecimento possibilitou este povo re- pensar suas formas de organização, inclusive sobre os sistemas de parentesco, uma vez que o nome (orúnkó) é de fundamental importância para essa cultura. O primeiro dos gêmeos foi chamado de Taiwo que quer dizer “quem primeiro sentiu o gosto pela vida”, e o segundo chamou Kainde que quer dizer “o que demorou a sair”. Kainde é o mais velho, dizem que ele mandou Taiwo vir primeiro para saber antes dele como era a vida aqui fora. As narrativas míticas dizem que os gêmeos Ibeji eram filhos de Oiá e Sàngó, e que Oiá havia desprezados eles logo do nascimento, Osun pegou as crianças para criar e desde então ibeji tem uma forte relação com Osun. Mas as crianças possuem temperamentos dos pais Oiá e Sàngó e também de Osún.

É costume na Tradição Iorubá e também Jejê do Benin, quando uma criança gêmeas morre, os pais são orientados pelos Bàbálawós/Bokono e/ou pelos sacerdotes-izas de Egbe a esculpirem uma estatueta que representam o gêmeo que se foi, do qual deverão cultuar - ao ponto de tudo que fizer para o gêmeo que estar vivo deverá fazer para o que se foi, para que ele não sinta ciúmes e deixa o irmão viver a sua vida em paz - há aqui uma forte relação com Abiku. Os pais deverão tratar essa estatueta como uma criança viva, deverão dá de comer, colocar uma roupa e troca-las de quando em vez etc.

Esse aspecto de alimentar, cuidar do filho gêmeo que se foi tem um sentido de existir - além do pressuposto de dualidade de que uma parte não pode ficar sem a outra, bem como o equilíbrio que deve comparecer sempre para que a vida da criança não se desemquilbre, há uma questão de vida e morte, é que a vida estar para morte tal como a morte estar para vida. Ibeji identifica esse pressuposto de vida e morte de forma sobremaneira. É que para além da ideia de filhos gêmeos, tem todo o aparato de nosso duplo no céu - na questão dos gêmeos é como se o duplo viesse para terra junto com seu par, por isso uma criança gêmeas na sociedade Iorubá é sagrada no seio de uma família e da sociedade, elas são as representações viva de Ibeji, o altar vivo desses seres divinos. Embora não sejam orisa, eles são divinos. Embora não sejam orisa, eles possuem culto - e sua importância entre nós deveria ser muito bem quista.

Babatunde Lawal um estudioso das Tradições Iorubá vai dizer no seu mejestoso livro “New light on Gelede” que “os gêmeos (ibeji), são os mais populares entre as crianças elegbe”. (p.68). Tal como abikú, elèkó, Iyalode, jagun, kori-koto, asipa etc., Ibeji também é uma espécie de Egbe - neste sentido esses seres espirituais simbolizados através do gêmeos - presentificam de forma muito evidente a nossa dualidade, a nossa vida dupla e as nossas relações com nosso duplo - é que todos nós temos nosso gêmeos no céu, por isso a importância de para além de descobrirmos nosso Egbe no céu, cultuarmos Ibeji deveria ser salutar para todas pessoas.

Um oriki de ibeji diz: Oriki ÌBEJÌ
Owó omodé ò to Pepe
Ti àgbálagbà ò wo akèrègbè
Isé èwe be àgbà,
Ki ó má se kò mó,
Gbogbo wa ni a nísé a Jo mbe araa wa.

As mãos das crianças não atingem o teto
As dos adultos não conseguem entrar no jarro Quando as crianças pedem favores a adultos, Que eles não recusem mais,
Pois um dia ambos precisarão um do outro.

O oriki esta se referindo aos aspectos duais da vida adulta e da vida de criança - a narrativa rima feito o poema “ou isso, ou aquilo” da poetisa brasileira Cecília Meireles. É que o adulto do alto da sua prepotência pode precisar dos favores das crianças do céu. E que o pedido da criança deve chamar atenção do adulto - hoje você tem isso, amanhã você precisa daquilo. Favores de Ibeji são necessários, porque ibeji nos enche de alegria, tornam a vida mais leve, ajuda a gente a desenrolar questões complicadas entre tantas outras coisas.

O compromisso de Ibeji com a humanidade é também de nos lembrar que somos para a morte, que um dia devemos retornar a nossa comunidade no céu e se conectar novamente com o nosso duplo. Ibeji presentifica a real necessidade de assegurarmos o tempo todo que a vida é um empréstimo com prazo de validade e que compreender que viver uma vida boa é também uma forma de garantir um retorno tranquilo junto daqueles que esperam por nós.

Para além da traquinagem, e da malandragem de Ibeji, esses seres querem nos lembrar também que viver é uma garantia e que devemos aproveitar cada segundo com harmonia, tranquilidade e vida útil - brincadeira de Ibeji é essa sútil forma de nos avisar de que uma vida pesada só nos gera mal-estar e que nosso espírito infantil deve sempre nos acompanhar para que a leveza da vida nos seja salutar enquanto dura nossa trajetória na terra.

Òrìsà Ibéjì pele o!
Orixá Ibéjì, eu te saúdo!

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