sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O NASCIMENTO, MORTE E SUICÍDIO


 Dentro da Cultura Ioruba, antes de um ser vir a este mundo é fecundado no ventre de uma mulher, um longo processo se dá. Os objetivos por que uma pessoa é criada estão relacionados ao seu destino. Todas as ações do homem na Terra são predestinadas por Olódumarè e determinadas de três formas:

1ª. A pessoa se ajoelha e escolhe o seu destino. Esta forma é denominada Àkùnlè Yàn – “Aquela que se ajoelha e escolhe”;
2ª. A pessoa se ajoelha e recebe o seu destino, que é denominado Àkùnlé gbá – “Aquele que se ajoelha e recebe”;
3ª. O destino lhe é fixado, lhe é determinado. Esta forma é denominada À Yan mó – “Aquele que escolhe e determina o destino para alguém”. Nessas ocasiões é que Olódumarè entrega à pessoa o seu Orí inú; o ìpònrí, a força vital ancestral; o orixá, a divindade tutelar e os ewò, os tabus, as proibições e deveres. Posteriormente, tudo retornará à Olódumarè para julgamento das ações da pessoa na Terra. O conhecimento do nome de todos estes elementos e seus guardiões será revelado através do Registro consultando Ifá. Existe uma organização no Orún(céu) assim como no Aiye (terra). No momento que Olódùmarè decide a nossa jornada de retorno, vamos até o Mercado de Ido / Ejigbomekun na loja de Ajálá para escolher um ori (uma cabeça). Ao sairmos do Mercado de Ido da loja de Ajala precisamos escolher nosso destino através de Onibodé Orun ( tentamos entender como uma espécie de portaria ou porteiro ), lá fica acordado o tempo que permanecerá no Aye até voltar para o Orun, sendo esse o destino que escolhemos. Este procedimento todo acontece na Fronteira entre o òrun e o Aiyê, denominada Àkàsò. Em seguida, a pessoa toma o caminho do mundo com o seu destino duplamente selado. Ao transpor o Àkàsò tudo é esquecido, inclusive o seu destino, com a passagem para o útero materno e o nascimento após o período de gestação. As determinações de Olódumarè ficam definidas como lembra um tradicional provérbio: Igi t’Olórun gbìn kò si eni ti o lè fà a tu – “A árvore que Olórun planta, não há ninguém que possa arranca-la”. É uma alusão ao poder de dar e tirar a vida de uma pessoa, atribuição restrita unicamente a Olódumarè. Já tem um Orí, que é aonde detém a centelha divina cuja força dupla do emi (sopro divino) é concebida por Olódùmaré do qual uma parte vem para o Aiye (terra) a outra parte fica no Orún (céu). Até o momento de nascer de novo essa partícula divina vive juntas na sociedade celestial onde acreditam fazer pactos e celebrar acordos. Alguns celebram um rápido retorno, outros já nascem mortos cumprindo um combinado de voltar ao Orún antes de nascer, outros ainda nem nascem e outros ainda ficam um bom tempo no Aiye causando sofrimento a si e/ou aos outros. Todo esse processo l é assistido por Orunmila, que se torna testemunha do que está sendo determinado. Por essa razão, as nuances deste destino podem ser devidamente acompanhadas, através de consulta a Orunmila / Ifá, e com a possibilidade de reajustar o que está em dissonância com o que foi determinado.
Obs.: Àkàsò seria a passagem mítica para o útero, seguido do esquecimento imediato, porém as impressões ficam registradas na placenta. Por isto a importância do Ritual Esentaye, lembrando que nosso duplo que até o nascimento esta nos acompanhando esta alojado por assim dizer na placenta. Para os Iorubanos toda criança que nasce é o retorno de alguém, as crianças são continuidade do legado da família que nunca pode acabar. Quanto mais um tronco familiar perpetuar sua estadia na Terra através dos seus descendentes, mais essa família garantirá para todos uma boa jornada entre os seus. Crianças são benção imensas, gêmeos simbolizam riquezas, fartura. Dentro desta crença todo ser humano vem ao mundo para ser feliz e viver plenamente, pois viver é a maior graça que Olódùmarè reservou para todas pessoas no Aiye (Terra). O conhecimento sobre os Odus e os poemas de Ifá ajudam a garantir que esta vida plena e feliz, através dos Ebos quando necessário.
Cabe-nos lembrar que todo este percurso é pre estabelecido lá em nossa Egbé Orun, nossa fraternidade ou família no céu. Aonde esta determinado o nascimento e a morte, Travessia como prefiro me referir. São varias Egbés.
Dentre as pessoas que nascem existe indivíduos “nascidos para morte” ou “nascidos para morrer” são chamados de Abiku ou também conhecidos como Emere que quer dizer os que vivem para sofrer e fazer sofrer. Muita pessoas nascem para morrer várias vezes, uma morte súbita ocasionada por fatores externos não é bem visto pelos Iorubás. Numa sociedade que embora célebre a morte, eles não gostam de morrer, sobretudo em tenra idade. Uma morte na infância, na juventude ou ainda na idade adulta é um pesar imenso para esse povo. Obs. Dentre as varias culturas que tive curiosidade de conhecer, não vi nenhuma que celebre com tanta alegria a vida como o Povo Ioruba.
Na Sociedade Iorubana o nível de suicídio é quase inexistente. É muito raro casos de suicídio entre os iorubas, assim como o índice de depressão é quase zero. É possível que essa cultura não entenda o sofrimento da depressão, tal como ele tem adoecido as pessoas no Ocidente. Creio que pelo contato com o conhecimento dos mecanismos que regem a vida neste e no outro plano. Quando essa morte é ocasionada voluntariamente no caso do suicídio eles veem como um mal súbito que atinge toda família e os grupos em torno dela. Uma pessoa que se mata não pode ter um funeral público, o corpo deve passar por uma série de ritos e isso deve ficar o mais resguardados possível. Tal morte é uma vergonha para os Iorubas, eles veem como uma coisa ruim, que não foi sanada devidamente. O ato suicida trata-se sim de um espírito abiku atormentando o indivíduo. Todo suicida vive da saudade do seu Egbe (sua fraternidade no céu). Os sacerdotes(izas) de Egbe devem proceder a consulta para descobrir qual pacto / que tipo de morte foi combinado com seu par no Orún(céu). Não que Egbe Orún exista para tornar a nossa vida ruim na Terra, atrapalhando nossas escolhas de vida. O que ocorre é uma saudade entre amigos, eles ficam desejando que a pessoa volte para o Orun para matar a saudade. Nosso Egbe Orun possui laços profundos com muitos dos seus queridos / amados / familiares no Aiye, uns possui esse vínculo mais forte que outros. A sociedade iorubá não acredita que o suicida fará a travessia para encontrar os seus - a preocupação será mais para o efeito disso na comunidade do que a preocupação com o destino do morto, que segundo essa tradição passará por uma série de processos de purificação e compreensão desse ato até poder estar com os antepassados. Para os Iorubás retornam na mesma família um ente querido que se foi, geralmente anciões e anciãs, porque quando uma criança nasce em uma família iorubá é uma alegria imensa, significa que parente que se foi, voltou.
Psicólogos e Psiquiatras, que tratam suicidas em potencial, tem registros aonde os mesmos se referem como algo no interior diz que não podem mais viver. Dentro da ciência que trata estes casos isto é chamado de: psicose, paranoia, esquizofrenia.
As Religiões tem cada qual um conceito para este quadro clinico, a Sociologia na Obra de Emile Durkheim sobre o suicídio diz que pode ser acionado por “coerção social” e uma determinada sociedade pode ter isso impregnado nela e ela mesma ser fator propulsor do suicídio. É como se o Egbe Aiyé ( a fraternidade terrena da pessoa ou família ) contribuísse para esse fator suicida. Na verdade tudo se desequilibra e a pessoa com sentimento ou vontade suicida acaba não achando lugar para si.
Em suma podemos entender que os pactos e acordos Egbe Orun podem causar uma série de perturbações e problemas com sua sociedade na terra (Egbe Aiye), em função de um sentimento/afeto forte entre o indivíduo na terra e sua família no céu. A cultura iorubá trabalha o tempo todo com a ideia de dualidade e de duplo. Toda pessoa possui sua fraternidade celestial no Orun, algumas possuem estes pares de forma muito ciumenta, possessiva, agressiva e invejosa etc., essas pessoas precisam estar o tempo todo apaziguando sua comunidade celestial para que eles não se voltem contra elas. Existem pessoas fizeram uma série de pactos com seu par no Orun tipo: não se envolver com ninguém na terra, não trabalhar, não estudar, envolver com drogas ou criminalidade para fazer os pais sofrerem, ou não gostar da mãe ou do pai etc., essas pessoas não têm consciência disso, mas a vida delas acabam sendo um sofrimento a si mesmo e aos outros. Outros ainda possui pactos de tirar sua própria vida quando tiverem com seus filhos adultos, ou quando o primeiro filho casar, ou ainda quando o filho caçula passar no vestibular. Outros tipos de pactos pode ser quando a criança subir em uma árvore pela primeira vez e ela vai cair e morrer, ou quando o adolescente vai na piscina pela primeira vez com o grupo de amigos do colégio e morre afogado. Há pactos que se referem quando a pessoa termina seu primeiro relacionamento, tudo com a intenção de cumprir um tempo acordados entre eles - e não por maldade, Egbe Orun não é ruim, eles são poderosos e forte. O Iorubá possui uma série de procedimentos para que a morte repentina desencadeada por Abiku não aconteça. A consulta oracular com um(a) sacerdote(iza) de Egbe pode desvendar o enigma que estar por traz do desejo de morte da pessoa. O Iorubá possui uma filosofia de vida pré -cristã, a forma deles comunicarem com a natureza, com a ancestralidade, com Deus e com os seres espirituais/divinos (Orixás) antecedem todo pensamento judaico - cristão. Sacerdotes são médicos tradicionais preparados para acessarem tais mistérios e ajudarem as pessoas a viverem melhor na terra. Para o Iorubá a melhor vida é no Aiye (terra) ao lado da sua família e dos seus. Justamente este conceito, que torna um povo alegre, que celebra Orixá e Orunmilá diariamente, na forma mais simples e natural. Buscando harmonia com a Natureza.
Babalawo Ifasegun Aworeni
Babá Marcelo D`Ogum
Babá Osóiná

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