REVISTA CARAS EM 2011

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terça-feira, 19 de abril de 2016

A dinâmica do uso de Ervas no Candomblé



Nos últimos 100 anos, o Brasil e a África têm compartilhado uma série de informações acerca do culto aos “Deuses africanos”, “Heróis divinizados”, Orixás, Jinkissi, Vodun etc., em busca de um purismo religioso que, pregam os mais tradicionalistas, resgatam as verdadeiras raízes da religiosidade.


A África e a América do Sul já compartilham muitas coisas há muito tempo, inclusive suas terras durante milhões de anos. Muitas das plantas e animais de ambos os continentes são semelhantes, seja por que são aparentadas, pertencentes à mesma família, segundo a ciência, ou por que evoluíram para exercer a mesma “função” em seu meio ambiente, um fenômeno chamado de “evolução convergente”.

Como se não bastasse as culturas se misturarem pelo vai e vem das naus há quinhentos anos, às vezes nem se sabe direito o que é originalmente africano, americano, europeu, oriental etc, e em se tratando do Candomblé e do uso das ervas, ainda mais!

Muitos dos vegetais que utilizamos em nossos rituais mais sacramentados não são africanos de origem, e sua inserção no culto aos Orixás tem origens e histórias das mais diversas. O Boldo vem da cordilheira dos Andes, o Abacaxi é sul-americano e Brasileiro por excelência, a Lavanda, a Alfazema, o Manjericão e o Alecrim são Europeus, a Mangueira vem da Índia, a Colônia é Tailandesa, a Maria-sem-Vergonha e o Quebra Pedra, por mais comuns que sejam por aqui, são verdadeiramente africanos, já o Caruru e o Mulungu, existem espécies tanto africanas quanto americanas, e o coqueiro vegeta espontaneamente em litorais de todo o planeta há milhares de anos.

Talvez o exemplo mais dramático seja o Milho. Todo iniciado logo aprende que um bom Acaçá agrada a todos os Orixás, e que poucas coisas agradam mais a Obatalá do que o Ebo feito com canjica, cujos grãos mais brancos foram escolhidos um a um e bastante cozidos, até ficarem bem macios, assim como sabe que pipocas são a principal oferenda à Obaluaiê, ainda mais quando estouradas na areia das praias.

No entanto, essas iguarias não são feitas com um grão vindo de uma planta originária da África. O Milho é uma gramínea, parente dos Capins, Bambus e Gramas, e é a forma doméstica do Teosirito, um matinho que, se olhar de relance, acha que é capim qualquer, que foi selecionado e desenvolvido há pelo menos 5 mil anos atrás pelas avançadas civilizações que habitavam a região aonde, hoje, é o México, e seu cultivo foi espalhado pelos indígenas por todo o continente americano, do Canadá ao Chile, e ilhas do Caribe. Foi levado para as colônias europeias na África após o “descobrimento”, há “apenas” uns 500 anos.

Se o culto aos Orixás, Voduns e Jinkisi tem milhares de anos, é improvável que o Acaçá sempre tenha sido como o conhecemos hoje, que os primeiros Ebó oferecidos a Obatalá fossem feitos de canjica e, nas lendas milenares de Obaluaiê, tenham se ofertado pipoca de milho. O Inhame substituiu o milho branco em muitas de suas atuais aplicações e o Sorgo, um grão pequeno, nativo do Oriente médio e cultivado por todo norte da África, muito provavelmente produziu pequenas pipocas oferecidas ao longo dos séculos.

O Africano entende o culto de uma forma pouco diferente da nossa, mais dinâmica e abertos às novidades, às oportunidades e ao progresso de sua sociedade, sem abandonar sua essência. Poderia citar vários precedentes, como o uso do rifle, que só surgiram no mundo ocidental por volta do século 15, como uma das representações mais importantes de um dos mais antigos sistemas oraculares do mundo, o Ngombo dos povos Bantu, sobretudo a etnia Tchokwe. Essa mesma dinâmica aplicou-se ao negro quando escravizado nas Américas, que aproveitou o que havia em mãos para continuar com seus rituais. Um bom exemplo é o Teteregun!

A planta original, o Teteregun (para os Yorubá) ou Muengi Mujolo (para os Bantu, dentre outos nomes) é conhecido pela ciência como Costus spectabilis, nome e sobrenome, ou melhor, gênero e espécie. Nas Américas, uma prima próxima,Costus spiralis, substituiu o Teteregun tão bem que a pequena diferença no aspecto da floração nem foi considerado, até por que as qualidades medicinais, o odor e o sabor das folhas quinadas são praticamente iguais aos de sua prima africana.

Para complicar ainda mais a equação, diversas etnias africanas foram espalhadas por toda a imensidão do Brasil, aonde tiveram contato não apenas umas com as outras, mas com indígenas de etnias diferentes e também diferentes espécies e variedades de plantas. O resultado é que muitas dos nomes aos quais nos referimos as ervas que usamos em nosso culto designam diversas espécies de plantas diferentes, muitas vezes sequer aparentadas. O que se chama de Inhame é conhecido como Cará no Sul e Sudeste, e vice-versa no restante do país. Um é uma trepadeira africana, Dioscorea sp.*, o outro é uma planta de raízes tuberosas nativa dos pântanos do extremo oriente, Alocasia sp.*. O Orinrin de Oxum ou Ewe Rinrin pode designar a Erva Jabuti, Peperomia pellucida, a Alfavaquinha de Cobra,Monniera trifolia, ou a Serralha, Sonchus oleraceus, plantas completamente diferentes, mas com qualidades medicinais bastante semelhantes, por mais improvável que isso possa parecer.

O critério utilizado para rebatizar espécies de plantas, em muitos casos, não se baseia na semelhança física como aconteceu com o Teteregun, e sim nas qualidades medicinais e, por que não dizer, no Axé que cada folha carrega e como ela responde às rezas feitas em sua intenção. Não há dados específicos, mas provavelmente os primeiros dirigentes testaram as folhas que encontravam para avaliar se poderiam utilizá-las em substituição às folhas originais que encontravam na África.

Por isso quando receber uma lista de ervas que você precisará providencias para um ebó, sacudimento, bate folha ou outro ritual, e se deparar com fotos e informações de diferentes tipos de plantas por aí, converse com os mais velhos e conheça qual é a planta a que eles se referem especificamente. Isso é muito importante, pois plantas muito parecidas podem ter resultados completamente diferentes e até mesmo perigosos.

Conheci uma filha de Obaluaiê que passou um banho para um consulente no qual iriam algumas folhas de Guiné. O problema é que a Guiné é basicamente tóxica, e dentre as diversas espécies que chamamos de Guiné, algumas são mais venenosas que outras. Esse consulente acabou usando uma das variedades mais tóxicas e em grande quantidade, e teve uma séria reação alérgica que gerou pústulas por todo o corpo e alguns dias de internação, o que deu um trabalho danado a todos do ilê, não apenas em rezas e acompanhamento dessa pessoa, mas por que receitar compostos de ervas, sobretudo para uso interno (beber ou comer) caracteriza crime de prática de medicina ilegal, pena de três a seis anos de cadeia e uma multa bem pesada! Por misericórdia de Oxalá, tudo deu certo nesse caso.

O conhecimento e o uso das folhas em nossa religião é essencial e fascinante, mas exige grande responsabilidade. Saber reconhece-las é um aprendizado essencial. Como boa parte dos mistérios em nossa riquíssima religião, desvendá-los leva algum tempo e muita dedicação.

* O termo sp. é usado, dentre outras aplicações, para denominar um grupo de diversas espécies que são classificadas no mesmo gênero e recebem a mesma denominação popular.

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