REVISTA CARAS EM 2011

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quarta-feira, 27 de março de 2013

Eu ontem na Jurema


V Kipupa Malunguinho 2010. Foto de Pedro Stoekcli Pires. (22)

Ontem eu fui a uma Jurema tocada nos ilús, maracás, com fumaça de cachimbos, de charutos, chapéus de palha, bebida jurema pra saldar esses mundos de tantos encantados, muita dança pra poeira subir e muitos mestres bons e mestras boas no ponto dançando e dando seus recados.
As festas do culto da jurema são bem isso: alegria e “ciência”, sorrisos e seriedade, onde mestres e mestras cantam, dançam – mas também falam sério –  aconselham, cumprimentam e ensinam. A minha sensação é que este culto junta as diversas influências recebidas aqui no Nordeste e ao assistir um ritual imediatamente me remeto aos índios sertanejos, aos negros trazidos e aos brancos com suas crenças. A Jurema representa assimilações de cultos e crenças forasteiras e a construção de uma nova identidade sem desrespeitar as suas primeiras raízes.
A Jurema soa a mim identificação, pois, no meu caso, lembra os costumes alimentícios que a minha família trouxe do interior e que persistem até hoje, as comidas de origem indígena tendo a macaxeira como base de inúmeras delas, me lembra também meu avô pilando café torrado no nosso imenso pilão, ele anotando a receita da bebida da jurema para ser guardada para eternidade, me lembra meu avô também rezando o meu olho doente pedindo uma cura, lembra minha avó rezando o ofício da Nossa Senhora da Conceição aos sábados, me lembra seu Zé Filintra dançando o coco e chamando pra dançar com ele as mulheres do salão. A Jurema me lembra todo esse sincretismo, todas as comunicações que culturas e crenças tiveram e se uniram num culto onde ambas não se excluem e convivem harmoniosamente em suas demonstrações rituais através de muita sabedoria.
Há quem apele para o “purismo”, há quem defenda a preponderância única de uma só raiz. Há quem não considere cultura como uma construção sempre em movimento, sempre andando de modo que sempre exista, sempre esteja presente no imaginário coletivo. Eu apelo, defendo e considero a Jurema. Do jeito que ela é.
Para mim, Jurema é assim: “quem nunca viu, venha ver” seus mestres, suas mestras, seus ensinamentos, seu gingado, suas cantigas, seus assuntos cantados. Assuntos sempre tão cotidianamente presentes nas nossas vidas. Cantigas que apelam para “sustentarmos o ponto” e não o deixarmos “cair”, e, caso ele caia, que consigamos erguê-lo novamente nos erguendo também. Cantigas que mostram o quanto de fortaleza e até certa brutalidade devemos ter para encarar esse mundo de gente, que mostram que “fumaças contrárias” podem chegar. Mas se por um lado elas enfatizam a necessidade do permanente cuidado com as intempéries, por outro, cantam o amor: o amor que quer se realizar, o amor que decepcionou, o amor que quer se vingar, o amor que fez chorar, o amor amante, o amor atrevido, o amor que recupera, o amor que corre atrás… E as mestras… Ah, estas são especialistas nisso.
Quem nunca dançou, venha dançar; quem não cantou, venha cantar; quem nunca bebeu, que venha bebê-la. O que os meus olhos veem e sentem não chegam aos pés da completude deste culto e por mais que eu conviva e que tenha sido cuidada pela Jurema desde antes de me entender por gente, ainda não consigo descrevê-la minuciosamente em sensações. Só sei que essas palavras juntas não refletem o meu sorriso e o mexido dos meus pés ontem.
Salve a Jurema Sagrada!

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