sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Por que existem dois Oxalá's?

 





No Candomblé, é muito comum nos referirmos a Oxalá (Òrìṣà-Nlá) de duas formas: a forma mais jovial e guerreira chamada de Oxaguiã (Òòṣàògìyán) e a forma mais velha e sábia chamada de Oxalufã (Òòṣàolúfón).
Ambos são Oxalá's e por vezes tratados como Oxalá Guiã e Oxalá Lufã. Pratico e vivencio o candomblé desde criança e, até me consolidar a uma casa e ser iniciado, não entendia muito bem como isso funcionava. Afinal, se Oxalá é um orixá (Òrìṣà), por que existem duas versões desta mesma divindade?

A resposta só viria anos mais tarde, quando comecei meus estudos sobre a cultura, cosmogonia e religiosidade yoruba.


A verdade, é que Oxalá possui um nome verdadeiro não sendo Oxalá, mas sim Obatalá (Ọbàtálá). Somente no candomblé chamamos a divindade de Oxalá. Este mesmo nome ainda pouco citado é um dos vários títulos de Obatalá. Oxalá significa "O Orixá Maior", e é muito comum ver oriki's (invocações) e adura's (rezas) de Obatalá chamando-o dessa forma. A palavra Obatalá significa "Rei do Pano Branco", fazendo jus às suas vestimentas brancas.

Pois bem, Obatalá é um orixá muito popular e diversificado, e para entendermos isso precisamos buscar a raíz de tudo isso, as terras yorubas, lugar de origem do culto à Orixá. O principal e mais popular templo de culto à Obatalá situa-se em Ilê-Ifé, no Estado de Oxum, tida como a primeira capital yoruba e a gênese de todo o povo yoruba. O Obatala Holy Temple é o príncipal templo de Obatalá do mundo e liderado por Olayiwola O. O. Dada, Obalesun Obatala Agbaye. Segundo Baba Obalufe, o templo é cheio de quadros e esculturas que remetem à criação do mundo, da humanidade e da vinda de Obatalá à terra. Obatalá, grande influenciador, teria se espalhado por toda região das terras yorubas, onde ganhou lugar de prestígio em cada uma delas. Seu culto se propagou e foi disseminado até o Novo Mundo (as Américas). No livro Órìsà dídá ayé: Òbátálá e a criação do mundo Iorubá, do professor Luiz L. Marins, relata que Obatalá teria saído de Ilê-Ifé e ganhado outros nomes em várias regiões.
Oosalufon em Efon; Oosaogiyan em Ejigbo, onde também levava o nome de Elejigbo; Oba-Igbo em Igbo; Baba Lejugbe em Ijugbe; etc. Segundo Marins (2012, p107), Oxalá é o maior e mais importante orixá no Candomblé, principalmente em casas baianas. Neste aspecto, podemos analisar e entender como funciona o culto de Obatalá no Brasil.

Verger define que há 16 Oxala's no Candomblé em seu livro Orixás (1981, cap19, p110). Dentre os 16, Verger cita dois dos mais conhecidos: Oxaguiã e Oxalufã. Vale ressaltar que, embora Verger se tornasse um ícone tanto da religiosidade quanto do culto à orixá no Brasil com total mérito, Verger cometeu alguns equívocos na coleta de algumas informações, onde o mesmo cita neste livro, Ajaguna, Obatala, Olissa como aspectos de Oxalá. Contudo, há uma parte que se deve a algumas confusões concluídas pelo autor, pois Obatala não é um tipo de Oxalá, mas seu nome verdadeiro. Ajaguna é um título de Oxaguiã e não um orixá à parte ou aspecto do mesmo. Enquanto Olissá é um vodun, divindade do panteão fon, sincretizada com Oxalá dos yorubas. Entretanto, ressalto que isso não desmerece ou desvalida o trabalho de Pierre Verger. Pelo contrário, Verger foi um dos pioneiros da busca pela tradição e gênese do Candomblé Ketu no Brasil.

Dessa forma, define-se que, diferentemente das terras yorubas, o Candomblé Ketu faz culto à apenas dois tipos de Obatalá's, haja vista que, para muitos sacerdotes e sacerdotisas, outros nomes e tipos de Oxalá's como bem definiu Verger (1981), são apenas tipos desses dois aspectos de Obatalá. Ainda teríamos uma terceira via oriunda do Candomblé Efon, onde Obatalá recebe o nome de Orixá Okê (Òrìṣà Òkè), tido por alguns um tipo distinto de Obatalá, enquanto que para alguns é um dos nomes de Obatalá. De facto, o culto à Obatalá não é tão simples assim.

Então quer dizer que a dúvida ainda permuta em nossas cabeças e jamais poderá ser solucionada? A resposta para isso é não!

Apesar de não haver um consenso sobre a diversidade de Obatalá, cada aspecto do mesmo se torna distinto e regional de seu local de origem. O eixo central do culto dessa divindade se dá em Ilê-Ifé, mas na crença dos sacerdotes de Obatalá dessa região, Obatalá é único e todo o resto seriam seus filhos, pertencentes ao seu clã (Baba Faseyi Awogbemi Dada, filho do sumo sacerdote dê Obatalá de Ilê-Ifé).

No Candomblé Ketu Brasil à fora, propaga-se que Oxalufã seria o pai de todos os orixás juntamente com Iemanjá (Yemọja), divindade do rio Ogun, na Nigéria. E o mesmo também seria o pai de Oxaguiã, sendo este o irmão caçula de todos. Contudo, minha vivência e experiência nas casas tradicionais baianas de Candomblé Ketu me mostraram que essa é uma definição um tanto equivocada, já que para muitas dessas casas, Oxaguiã é irmão de Oxalufã, o que se adequa a definição ainda pouco citada de Baba Faseyi Awogbemi Dada de Ilê-Ifé.

Portanto, Oxalá continua sendo Oxalá, e o mesmo continua sendo constituído da mesma forma que nossos fundadores consolidaram seu culto aqui no Brasil. Seja Oxaguiã irmão mais novo de Oxalufã, seja filho e pai, ou um aspecto jovem e outro idoso do mesmo orixá, é importante manter em mente que Oxalá é um orixá de suma importância e relevância, e faz-se necessário todo o cuidado e respeito à essas divindades.

Texto: Odelobi Cristian Osoosi

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