REVISTA CARAS EM 2011

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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Ògún e seu poder sobre os metais



Os Òrìsà e o povo estavam vivendo na Terra criada por Òsàlà, e onde todos exerciam suas tarefas: a caça, a limpeza da terra para a agricultura, a plantação, a construção de suas casas, para abrigo de suas famílias. Tudo era feito com muita dificuldade por falta de ferramentas adequadas para o trabalho e, agora, mais ainda, pois as distâncias aumentavam, a cidade crescia para o lado das montanhas, com seus terrenos desnivelados por gigantescas rochas com caminhos inacessíveis.

Olhando o que tinha feito e o que estava por fazer, os Òrìsà discutiam a melhor solução para o problema. Diziam: "Deixe um de nós começar a tarefa, derrubando as árvores e limpando a terra. Depois poderemos plantar em nossos campos." Todos concordaram, exceto Olókun: "O meu domínio é a água. A terra e as árvores não são meus afazeres."




Òsányìn, o Òrìsà das folhas, disse: "Eu limparei primeiro os campos." E pegou a sua faca do mato, e partiu para as árvores, começando o seu trabalho. Mas a sua faca era feita de madeira e pedra, e, assim, ele não conseguia fazer o corte necessário. Após algum tempo de uso, ela quebrou. Òsányìn retornou e disse para os demais companheiros: "Eu comecei o trabalho, mas a madeira era tão dura que partiu a minha faca."



Òrìsà Oko, senhor dos campos livres, falou: "A minha faca é mais forte, e cortarei as árvores e destruirei as rochas." Em seguida, partiu para o trabalho, mas não conseguiu executá-lo como queria, pois a sua ferramenta não suportou a árdua tarefa. Disse então: "Aconteceu o mesmo comigo, a minha faca está cega e torcida."



Depois, Èsù, com seu corpo potente, armou-se com suas ferramentas e foi para o meio da floresta. Ali permaneceu por longo tempo e, quando retornou, seu semblante estava amarrado: "Eu limpei a terra e desloquei as rochas, mas o metal de minhas armas não é forte o suficiente para tal empreitada." Um por um os Òrìsà tentaram, mas não conseguiam fazer o que pretendiam. "Em que espécie de lugar estamos vivendo? Como poderemos sobreviver aqui?"





Até aquele momento, o único Òrìsà a se manter calado era Ògún, que observava todo o movimento sem nada dizer. Somente quando todos já haviam tentado, ele se levantou de onde estava e disse: "Nísisìyí àsìkò mi ni." ("Agora é a minha vez."). Dizendo isto, partiu para o campo. Executou o corte das árvores necessárias para a abertura dos caminhos; com potentes golpes destruiu as rochas, enquanto outras foram deslocadas para manter a terra livre das pedras. Toda a terra foi arada, amaciada e semeada. Deu novos caminhos, enquanto ia eliminando plantas desnecessárias. Ògún trabalhou até o final da tarde ininterruptamente. Quando terminou a sua obra, retornou para junto dos demais Òrìsà, que já o aguardavam. Lá chegando exibiu suas armas e ferramentas utilizadas. Estavam afiadas e intactas.



Diante do que viam, perguntaram: "Que metal esplêndido é este?" Ògún respondeu: "O segredo desse metal me foi dado por Olódùmarè. É chamado de Irin, o ferro." Os Òrìsà olhavam as ferramentas de Ògún com muita admiração, dizendo: "Se tivéssemos o conhecimento do ferro, nada para nós seria difícil." Ògún observou o interesse de todos, mas relutou em ensinar o seu segredo. "Olódùmarè não me autorizou", disse. Mas não se negou a fazer armas e ferramentas a quem lhe pedisse. Para isso, construiu uma forja em sua casa e passou a fabricar os diversos tipos de armas e instrumentos de trabalho, pois Ògún, além de guerreiro, era um grande caçador. A caça, até aquela época, era efetuada com armadilhas e armas bem leves, além de se contar com muita sorte nas empreitadas.


A relutância de Ògún continuava a incomodar os demais Òrìsà, que, embora estando com as novas armas criadas por Ògún, insistiam em conhecer o segredo de sua fabricação. Pensando no assunto, todos tomaram a iniciativa de dar a Ògún o título de Osìnmalè, o Chefe dentre as Divindades(osìn: chefe; irúnmalè: divindade). Considerando tudo isso, Ògún concordou com o pedido de todos. Passou a ensinar o processo de fazer a liga dos metais, a criação de armadilhas, ferramentas, lanças, espadas e facas.



Em pouco tempo, todos os Òrìsà eram possuidores do conhecimento do uso do ferro. E vieram pessoas de outras regiões para aprender, e Ògún ensinou tudo a todos. Embora Ògún tivesse aceito o cargo de chefia que lhe fora dado por todos os Òrìsà, ele continuava a ser o grande caçador que era, pois muitos dependiam de sua capacidade para sobreviver.E, assim, embrenhava-se floresta adentro a fim de caçar os animais de que tanto gostava. Vestia-se de roupas de couro presas por màrìwò, equipava-se com as armas de luta e seguia seu caminho.


A atividade de caçador era muito árdua, obrigando-o a ficar isolado vários dias, dormindo sobre a terra ou em árvores. Ògún abatia muitos animais, em constantes lutas. Quando saía da floresta, estava sujo, seu cabelo, embaraçado, e as peles que vestia ficavam rasgadas e manchadas do sangue de sua caça. Seguia o caminho de volta à cidade para reencontrar seus companheiros.


Certo dia, os Òrìsà, ao verem Ògún chegando daquele jeito, disseram: "Quem é este estranho todo sujo que vem da floresta? Certamente não é Ògún, o qual indicamos para ser nosso chefe." Eles ficaram descontentes com Ògún e continuaram: "Um chefe deveria se manter com dignidade, suas roupas deveriam ser limpas, e o seu cabelo, bem aparado. Você está indistinguível do mais humilde caçador de Ifè, e o ar à sua volta está empesteado de carne morta." Dizendo isso, concluíram: "O cargo que lhe demos, nós o tiramos agora. Você não é mais o nosso chefe."



Ògún, ouvindo aquilo replicou: "Quando vocês precisaram do segredo do ferro, souberam implorar-me para ser o chefe de todos. Agora que já são possuidores do poder, dizem que eu cheiro mal." Falando isso, Ògún foi até o rio mais próximo, tirou suas roupas sujas de pele de animal e banhou-se. Quando já estava limpo, vestiu suas roupas de màrìwò(folhas de dendezeiro depois de desfiadas mediante um ritual específico), pegou suas armas e partiu para a cidade de Ìré. Construiu uma casa embaixo de uma árvore de akòko, lá permanecendo solitário, mas fiel aos seus compromissos de se manter vigilante nas terras de Ilé Ifè.


(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)

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