REVISTA CARAS EM 2011

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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Os títulos de Ògún


Ògùn vivia com sua mãe, Yemoja, no castelo nas profundezas do mar. Cansado dessa vida, resolveu sair em busca de outra que se adaptasse ao seu temperamento. Pediu licença a ela e partiu.

Já em terra, caminhava por meio da floresta quando sentiu fome. Sentou-se embaixo de uma árvore, quando viu animais correndo. Logo fez uma lança de madeira e caçou o seu primeiro animal. Após prepará-lo da forma como gostava, ele se alimentou e sentiu suas forças se revigorarem. Por este ato de caça , recebeu o título de ÒgúnOlóde(Senhor dos Caçadores), ensinando esta função ao seu irmãoÒsóòsì, porque o seu temperamento não dava para ficar esperando pelos animais.




Seguindo o seu caminho, Ògún, mais adiante, tropeçou numa pedra, que nada mais era do que um minério de ferro. Pegou-o e viu que era consistente e ideal para servir como sua arma de luta. Preparou uma forja e modelou o minério em forma de espada. Produziu também outras ferramentas que serviram para um trabalho melhor na lavoura. A este minério, Ògún deu o nome de Irin, ferro, e por isso ficou conhecido como Bàbá Irin(Pai do Ferro).



Eis que eclode uma guerra, e os Òrìsà necessitam de ajuda. Òrúnmìlà pede que Sàngó chame seu irmão mais velho para derrotar os inimigos, pois ele tem os segredos da guerra e também das armas. Ògún reluta mas acaba cedendo aos pedidos de Sàngó. Na guerra, Ògún se destaca pela bravura, liquidando os inimigos com sua espada e saciando sua sede com o sangue de seus adversários. Logo a notícia se espalha e o povo, ao ver Ògún retornando, passa a chamá-lo de Ògún Aiaká Gbamu Èjè, que significa: Ògún recebe e toma o sangue.


Com a vitória de Ògún, ele é novamente chamado para outra tarefa.: desta vez, a tomada da cidade de Ìré. Ògún teve de destruir primeiro as sete cidades que cercavam e defendiam o povo de Ìré, o que o fez ser chamado de Ògún Méjèèjè e, mais tarde, ao entrar vitorioso na cidade, ser aclamado como Ògún Oníré(Rei de Ire).


Deixando seu filho, Ògúndahunsi, no governo das novas terras conquistadas, Ògún retorna à cidade e passa a trabalhar com muita atividade em sua firja, sempre acesa, pois tinha que fabricar mais armamentos e ferramentas de trabalho para atender aos pedidos vindos de todas as regiões. Ògún se vestia com um avental de couro quando estava em seu trabalho na forja de metais, e o povo passou a chamá-lo de Ògún Alágbède, o ferramenteiro, o senhor da forja.


Esta demonstração de arte no manuseio do fogo com o objetivo de fazer a liga dos metais necessários o faz dizer diversas vezes a expressão Orò mi’ná(n), que quer dizer: Meu ritual é o fogo. Os pedidos passaram a ser tantos, devido às vitórias obtidas com sua espada invencível, que Ògún chamou seu irmão Èsù para ajudá-lo nas tarefas. Só que Èsù começou a criar problemas e Ògún teve de acorrentá-lo a suas próprias pernas. Devido a isto, Èsù só ia onde Ògún fosse.

Acontece que Ògún foi chamado para comparecer a dois lugares diferentes, no mesmo dia e na mesma hora. Então, Ògún pediu a Èsù que fosse a um deles e que se fizesse passar por ele. Combinou que quando batesse palmas, Èsù deveria voltar rapidamente. Assim, Ògún partiu para um lado e Èsù para outro. O povo, pensando que era Ògún que estava em dois lugares ao mesmo tempo, denominou-o Ògún Aláméji.



Depois de algum tempo, quando Ògún estava seguindo para um outro trabalho, os cães que existiam na região começaram a avançar sobre ele, latindo sem parar. Furioso, Ògún bateu palmas, mas Èsù não apareceu. Ògún então se pôs em fuga em direção à montanha, com os cães o perseguindo. Ògún, cada vez mais furioso, começou a dilacerar e matar os cães com os dentes. E o povo, vendo aquilo, exclamou: “Ògúnjá!”, uma forma reduzida da frase “Ògún je aja”, que significa: “Ògún come cachorro.”


CONCLUSÃO:

A multiplicidade do panteão de divindades pode ser explicada através deste relato. A fusão de culturas e os feitos heróicos proporcionam cognomes e títulos anexados às divindades, motivando individualizações. Foram criados assim novos Òrìsà atrelados ao Òrìsà principal.

NOTAS:



Orí Òkè: O alto da montanha. Onde Ògún costumava permanecer em seus momentos de solidão. Dali ele partia para suas conquistas: “Ojóti Ògún nti orí òkè bò, aso Iná(n) l’o mu bo ara èwù èjè l’o wò.” (No dia em que Ògún estava descendo a montanha, estava vestido de fogo e usava roupa de sangue.)

Alada Méjì: O dono das duas espadas. É outro título de Ògún e que revela o seu conhecimento na criação de todos os tipos de ferramentas para todas as finalidades, como bem revela a simbologia de seu assentamento. A expressão seguinte bem revela o fato: “Ògún aláda méjì o nfiòkan sá’ko, o nfi òkan yè ònà.” (Ògún, o dono de duas espadas, com uma ele prepara a fazenda, com a outra ele desimpede a estrada.

Ìkolà: Como artista, é Ògún quem dá o toque final ao trabalho criativo de Òsàlá. Após este haver acabado a moldagem do homem físico, é Ògún quem assume o trabalho da circuncisão.
Ìbúra: Juramento, promessa. É ainda o metal de Ògún utilizado nas cortes de justiça, para as pessoas que não são cristãs nem maometanas. Assim, fazem o juramento de “dizer a verdade e nada mais que a verdade”, beijando uma peça de ferro, geralmente um facão. Este acordo feito perante Ògún é considerado extremamente sério.
Méjèèjè: Literalmente significa todos os setes. O radical éje representa o numeral sete, advindo daí outras tantas denominações: èkéje, sétimo; nêmese, sete vezes; méjeméje, sete de cada vez; ìjéje, sete dias atrás. Esta qualidade de Ògun é conhecida popularmente como Ògún Méje.


(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)

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