Jerónimo da Costa – O cigano que morreu por Portugal
Jerónimo da Costa – O cigano que morreu por Portugal
Por:Julian CortêsCorria o ano 1640 e Portugal acordava no fim do longo sono sob domínio espanhol. O estandarte da liberdade hasteava nos ventos do Alentejo, e no meio do clamor de um povo determinado a reconquistar a sua soberania, ergueu-se a figura de um homem inesperado: Jerónimo da Costa, um cigano sem títulos nem fortuna, mas com a alma mais firme que as muralhas de qualquer castelo.
Numa época em que ser cigano era sinônimo de exclusão e suspeita, Jerônimo não esperou para ser chamado. Não houve carta de recrutamento nem promessa de pagamento. Vendeu o pouco que tinha e se apresentou à guerra com seus próprios cavalos e suas próprias armas, disposto a lutar não por ouro nem por honra, mas por uma terra que ainda não o aceitava como seu, mas que ele sentia profundamente como pátria.
Durante três anos de fogo e fronteira, Jerónimo lutou nas linhas mais perigosas do Alentejo. Era sempre o primeiro a avançar, o último a aposentar. Sua figura tornou-se lenda entre os soldados: um cavaleiro negro que aparecia quando a batalha mais recuava, e que lutava com a força daquele que nada tinha a perder além da dignidade.
Foi na Batalha do Montijo, em 1644, que encontrou o seu fim. Dizem que ele morreu de pé, espada na mão, cobrindo a retirada dos seus companheiros. E embora tenha caído entre a lama e a pólvora, a sua história não foi enterrada com ele. O próprio rei João IV, comovido com aquele ato de entrega absoluta, quebrou os decretos da época e concedeu à sua esposa e filhos o direito de viver como súbditos naturais do reino. Um gesto quase milagroso para uma família cigana do século XVII.
Os cronistas não souberam bem como escrever seu nome. Alguns silenciaram-no. Outros mencionaram isso com desconfiança. Mas o povo não esquece quem sangra por ele. Nas terras do sul, ainda se murmura a lenda daquele cigano que não pediu nada e deu tudo. Que sem medalhas nem uniformes, foi mais soldado que muitos generais.
Jerónimo da Costa não era um homem comum. Foi um símbolo. Um testemunho vivo de que o valor não tem raça, que o amor à terra não entende sobrenome, e que a história verdadeira é escrita por aqueles que lutam com o coração.
Hoje, sempre que um cigano ergue a testa com orgulho, sempre que alguém defende a dignidade contra a injustiça, o espírito de Jerônimo galopa novamente, lembrando-nos que há nomes que não precisam de mármore para serem eternos.
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