REVISTA CARAS EM 2011

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domingo, 24 de março de 2013

Dos meus caminhos com o Orixá


A iniciação em si já é um marco por se tratar de uma transição, de um renascimento do iniciado como uma nova pessoa.  Eu mesma tive noção de quem eu realmente sou, de como eu realmente sou após a feitura. Recordo-me exatamente da sensação após eu ter saído do preceito, de encarar o mundo com uma roupa de cor, com os cabelos curtinhos e a nova sensação no peito. Lembro até da primeira coisa que eu fiz assim que tirei o branco e do quanto me enxerguei diferente no espelho. As pessoas me notavam diferente e eu me notava diferente também. Eram meus recém 18 anos, eu nem sabia o que era o mundo ainda, tinha acabado de sair da escola, entrado na faculdade e a minha entrada de vez num mundo muito maior coincidiu com a entrada definitiva de Iansã na minha vida. Tudo mudou. Talvez tenha sido proposital da parte dela. Acho que sim. E essas lembranças vivem voltando à tona cada vez que vejo mais um iniciado nascendo, mais uma irmã ou irmão passando pelo preceito e relatando as situações vivenciadas neste período.
De lá pra cá se vão quatro movimentados e inesperados anos aonde eu venho aprendendo a sentir e entender os sinais dela – que algumas vezes são silenciosos e noutras tão gritantes. Acho que com o tempo os iniciados desenvolvem uma relação pessoal com o próprio Orixá. Chega a ser íntima. Falo por mim, falo pelo que eu sinto com Oyá, falo pela segurança que ela me dá quando eu estou no meio de uma tempestade e da segurança que eu lhe dou ao afirmar que sempre irei por ela, custe o que custar.
Eu tenho vivido o meu tempo de iniciada com o maior cuidado e delicadeza possíveis, gradativamente tentando entender todos os acontecimentos, mesmo quando eles surgem de forma totalmente inesperada. Já errei o caminho para onde ela apontou, às vezes entendi errado o que ela falava… Coisas que qualquer filha criança como eu faz.
Acho que eu e Oyá estamos um pouco misturadas. Não falo isso nem pra demonstrar alguma soberba ou algum orgulho. Tenho orgulho do meu Orixá sim, tenho a minha essência individual sim, tenho muito ainda a aprender com ela e sobre ela sim, mas tenho-a muito em mim e isso eu não preciso explicar porque o sentir nem sempre consegue ser traduzido.
Muitas vezes falamos de assuntos sobre a religião muito necessários e que precisam com urgência serem relatados e ensinados. Eu tenho a dimensão do quanto o nosso blog, por exemplo, é importante neste meio virtual no tocante a estas informações e o quão ávidos são os nossos leitores por aprendizados, conselhos e explicações. Porém, eu acho necessária também essa pausa pra falar sobre o sentir, acho necessário eu parar pra pensar no meu Orixá como energia que me acompanha diariamente e não só como um Orixá dos ventos e das tempestades. Cada um precisa sentir o Orixá que há dentro de si. Pensar nisso, refletir isso e observar isso. Mais aqui dentro, menos lá fora, gente. Às vezes alguns iniciados procuram tantas informações externas sobre o orixá ou saem tão alvoroçados atrás de respostas para as agonias momentâneas que chega a parecer que esquecem-se que o Orixá está neles, que eles tiveram Ori e corpo sacralizados para o Orixá fazer dali também sua morada. Parece que esquecem que o Orixá ouve.
Eu, passado o ritmo turbulento que só as mudanças trazem, tenho pensando e sentido muito essa interação. Além de aprender mais, faço meus “feedbacks” e me sinto alegre e confiante na forma como tenho caminhado.
E como canta Maria Bethânia:
“O mais importante do bordado
É o avesso, é o avesso
O mais importante em mim
É o que eu não conheço
O que de mim aparece   
É o que dentro de mim Deus tece


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