REVISTA CARAS EM 2011

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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Èsù, o princípio dinâmico da existência



Os leigos na religião dos Òrìsà, imersos no simbolismo do mal construído pelas igrejas e pelos detentores do poder durante a escravidão, aprenderam a conferir a Èsù o princípio demoníaco da feitiçaria, da bruxaria e da maldade. No entanto, se lermos as poesias e narrativas sobre Èsù vamos mergulhar na profunda espiritualidade deste Òrìsà, a qual é vital para nossas travessias e desafios.
Longe de ser o diabo, Èsù é o princípio dinâmico de comunicação e individuação, o princípio da existência cósmica e humana. Ele é o princípio que representa e transporta o axé (força vital), que assegura a existência dinâmica, permitindo o acontecer e o devir. Ele traduz aos homens as palavras dos Òrìsà e simboliza a descendência, a intercomunicação, a participação. É ainda símbolo da sexualidade e da fertilidade.




Èsù responde pelo movimento da vida, introduzindo o acaso e a sorte no destino dos homens e mulheres; rompendo os modelos conformistas do universo, as psicologias do "ajustamento"; e nos levando aos desafios do novo e da desordem e da possibilidade permanente de mudanças.


Ele nos questiona permanentemente, ao nos revelar que o mundo é produzido e que pode ser produzido de maneira diferente. Indaga-nos pelas nossas utopias e esperanças e nos mostra a fragilidade de nossas tentativas de criar sistemas e estruturas definitivas, onde a vida fica limitada e sem horizontes.


Èsù traz desafio e a irreverência (ele troca o sol pela lua, etc), ele permite aos homens e mulheres a possibilidade de autodeterminação, de exercer o pensamento divergente, de confrontar as interdições sociais que limitam o gozo da liberdade. Como princípio dinâmico é o-não-ainda-possível.


Èsù é o pai da luta: duelo e desafio. A vida é luta, e o modo de viver e de lutar, e de lutar pela vida e viver da luta é duvidar. Èsù é o entusiasmo permanente de vida e luta!


Èsù é a quem se devota afeição e amizade, a quem se confia os segredos mais íntimos e as promessas e pedidos a serem atendidos. Porque ele está em tudo. Tudo o que existe tem o seu Èsù, tudo que tem vida e participa intimamente desta força vital de Olódùmarè.




Èsù simboliza a força de Olódùmarè e evoca o prestígio da força vital(axé), da vida inesgotável e da fecundidade.

Se Èsù, no culto a Ifá, "fala pelos odus" traduzindo aos homens e mulheres as palavras de Olódùmarè e dos Òrìsà, no domínio de Ossaim é quem abre as portas para cada Òrìsà -que tem suas próprias folhas- possa fixar-se na cabeça -ori- dos seus filhos e filhas. No reino dos Egum é quem permite a passagem deles para o corpo das crianças que vão nascer... Não há morte nesta teologia, mas uma transformação permanente de vida em busca da plenitude e da ancestralidade.


É Èsù quem abre as portas e traça os caminhos, e cuja missão é criar aberturas entre os planos espirituais e o material, furar as paredes que separam uns dos outros, fazendo-os entrar em comunicação por seu intermédio e assegurando, assim, a união cósmica.


Èsù fi ire bò wá o.
Èsù faça nossas vidas plena de coisas boas.


É este sopro de vida, este axé onde funde-se o princípio vital de individuação e comunicação -Èsù-, mediador entre Olódùmarè, os Òrìsà e homens e mulheres, princípio de vida, de liberdade, de amor, de generosidade, oferenda, ebó, benção, justiça, santidade, equilíbrio cósmico e todos os etcéteras que couberem nesta nossa travessia de vida.



Èsù é avesso aos dogmas, preconceitos, autoritarismos que revestem as instituições. Èsù não se deixa aprisionar pelos espíritos mesquinhos dos homens e das mulheres, pelas suas miopias e sua arrogância, mas está vivo e atuante em todos os que buscam o equilíbrio cósmico, da natureza com o humano, do humano com o humano, do humano com o divino e com todas as plurais combinações possíveis nesta nossa "travessia perigosa, mas que é a da vida".


Àse Èsù yóò bá o gbé làyè.
(O axé de Èsù vai acompanhar você por toda a vida.)




(Partes do Texto "Exu: Ruah, Pneuma, Espírito Santo" do livro "Carne do Sagrado- Edun Ara: Devaneios sobrre a Espiritualidade dos Orixás" de Paulo Botas, com adaptações)

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