segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O POVO DAS ÁGUAS


 Na Umbanda, a Linha de Marinheiros traz a força do mar, o balanço das ondas.

E a sabedoria daqueles que aprenderam com a vida em constante movimento.
São espíritos que se apresentam com alegria simples, fala mansa e risadas soltas.
Mas carregam profundos ensinamentos sobre humildade, fé e resistência.
Os Marinheiros representam as almas que enfrentaram tempestades externas e internas.
Que aprenderam a se manter firmes mesmo quando o chão faltava sob os pés.
Por isso, trabalham especialmente nos campos emocional e espiritual.
Ajudando a acalmar corações aflitos, aliviar angústias, combater vícios.
Além de limpar energias pesadas que se acumulam ao longo da caminhada.
Ligados às águas salgadas e à vibração de Iemanjá.
Os Marinheiros ensinam que a vida, assim como o mar, tem dias de calmaria e dias de tormenta.
Porém, que nenhum deles é eterno.
Com seu jeito descontraído, mostram que é possível sorrir mesmo após a dor.
Recomeçar após a queda e seguir viagem com esperança renovada.
Na gira, chegam cantando pontos que lembram navios, portos e travessias.
Trazendo leveza ao ambiente e convidando todos a soltar o que pesa demais.
Seu trabalho é de limpeza espiritual, descarrego e orientação.
Sempre com palavras simples, mas cheias de verdade.
A Linha de Marinheiros nos recorda que não somos feitos para ficar parados no sofrimento.
Somos viajantes da existência, aprendendo em cada porto e seguindo adiante.
Confiando que, mesmo em meio às ondas mais fortes, há sempre uma força maior guiando o leme da nossa vida.

DEPOIS DO FUNERAL





 Um amigo compareceu no local do óbito de um parente um dia antes do funeral para pernoitar e, no dia seguinte, participar do acto no fúnebre. Ao verificar algumas particularidade, típicas da nossa tradição, foi fazendo algumas pergunta e julguei necessário partilhar com vocês.

O óbito na cultura africana angolana é um acontecimento de grande relevância social, espiritual e comunitária. Não é visto apenas como o fim da vida física, mas como uma passagem do mundo dos vivos (físico) para o mundo dos antepassados (ancestral).
S O B R E A M O R T E
Na maioria das culturas tradicionais angolanas, a morte representa:
A continuidade da existência em outra dimensão;
A transformação do falecido em ancestral, com poder de proteção, orientação ou advertência;
Um elo entre os vivos e o mundo espiritual;
O espírito do falecido permanece ligado à família e à comunidade, sobretudo se os rituais forem corretamente cumpridos;
Caso o falecido ou falecida tenha um percurso errado, má conduta ou tenha cometido suicídio, faz-se um ritual para que não voltasse a nascer na família alguém que herdasse aquele espírito.
R I T U A I S
Os rituais variam de etnia para etnia (Kimbundu, Umbundu, Kikongo, Cokwe, entre outras), mas geralmente incluem:
Velório prolongado, com cânticos tradicionais, lamentos, orações e contação da história de vida do falecido
Uso de panos específicos, cores simbólicas (preto, branco ou vermelho, conforme a tradição);
Os momentos que antecedem o dia funeral é recomendável que as mães coloquem pequenas tiras de pano da malograda/o ou outro escolhido pela família no pulso dos filhos e irmãos como símbolo de luto ou amenizar a saudade.
Banhos rituais do corpo ou da família, simbolizando purificação;
No dia do funeral, caso exista entre os vivos alguém que consciente ou inconscientemente tivesse relações sexuais com alguém que o malogrado ou malograda manteve também relações, estes deverão comer pequenos pedaços de mandioca crua e sal;
Esses rituais garantem que o espírito encontre descanso e não cause perturbações aos vivos.
L U T O
O luto é coletivo
A família não enfrenta a dor sozinha; toda a comunidade participa;
Em alguns casos, os vizinhos contribuem com alimentos, dinheiro e apoio moral;
O período de luto pode durar dias, meses ou até um ano, dependendo do estatuto do falecido.
Durante esse tempo, há restrições comportamentais, como evitar festas ou determinados adornos.
A N T E P A S S A D O S
Os antepassados são considerados:
Guardiões da família;
Mediadores entre os vivos e o mundo espiritual;
Responsáveis pelo equilíbrio social e moral.
A falta de respeito aos rituais fúnebres pode ser interpretada como causa de doenças, conflitos ou má so

domingo, 1 de fevereiro de 2026

UMBANDA:



 A história de Janaína, Sereia do Mar, nasce do encontro entre o sagrado africano, o canto do oceano e a fé do povo. Janaína é um dos nomes ancestrais de Iemanjá, conhecido nas águas profundas como a face encantada da Mãe do Mar, aquela que se manifesta em forma de sereia para caminhar mais perto dos corações humanos.

Conta-se que, antes de ser chamada de Rainha dos Oceanos, Janaína era o espírito vivo das águas salgadas, guardiã dos abismos e das correntes invisíveis. Metade mulher, metade peixe, ela nadava entre os mundos, levando mensagens entre o céu, a terra e o fundo do mar. Seu canto não seduzia por vaidade, mas despertava a alma, chamando os filhos a lembrarem quem realmente eram.
Janaína conhecia as dores humanas. Cada lágrima derramada na beira do mar era acolhida por ela e transformada em concha, pérola ou espuma. Dizem que foi assim que o oceano aprendeu a consolar: chorando junto com quem sofre. Quando um coração estava partido, Janaína surgia nas noites de lua cheia, cantando suave para acalmar a dor e devolver esperança.
Na Umbanda, Janaína é vista como a sereia-mãe, aquela que ensina sobre sentimentos profundos, maternidade espiritual e proteção. Ela não permite que seus filhos se percam nas próprias emoções, mas também não impede o choro, pois sabe que é através dele que o espírito se limpa.
Seu espelho reflete a verdade, sua concha guarda segredos e suas águas lavam aquilo que já não serve mais. Janaína ensina que amar é se entregar, mas também saber voltar à superfície para respirar.
Por isso, quando alguém entra no mar pedindo proteção, amor ou equilíbrio, é Janaína quem escuta primeiro. E quando as ondas se agitam sem aviso, dizem os antigos: é a sereia do mar se movendo, ajustando destinos, limpando caminhos e lembrando que toda vida começa e recomeça nas águas.
Janaína não é apenas lenda. Ela é fé viva, mistério, acolhimento e força feminina que reina no silêncio profundo do oceano.