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Como surgiu a consulta a Ifá.




Este mito fala sobre o retorno de Òrúnmìlà para o òrun, ficando os ikin¹ como seus representantes na Terra. Tem início num determinado tempo, quando Òrúnmìlà ainda não possuía filhos e seus oponentes o recriminavam: “Bàbá ò ní bi omo ni Ifè.” [“O pai que não tem filhos em Ifè.”]. Mas estavam enganados, pois mais tarde ele veio a ter oito filhos que se tornariam reis em várias cidades yorubás.

O primeiro filho foi denominado Alárá, o rei da cidade de Ará; o segundo foi Ajerò, rei de Ìjerò; o terceiro, Olóyémoyin, rei da cidade deOyé; o quarto, Alákegi; o quinto, Óntangi-òlélé, rei de Ìtagi; Eléjèmòpé, de Ìjèlú; Owaràngún-àga, título de sacerdotes de Ifá; e Olówó, rei deÒwò.

Òrúnmìlà sentiu-se realizado, e, por ocasião de uma grande solenidade, quando celebrava um ritual, mandou chamar seus filhos. Atendendo ao chamado, todos prestaram obediência ao pai, saudando-o com a expressão “Àborúboyè bo síse.” [“Que os rituais sejam abençoados e aceitos” ou “Que o sacrifício seja abençoado e aceito.”]. Apenas Olówó se recusou a saudar Òrúnmìlà. Além disso, ele estava todo vestido de forma idêntica ao pai, o que significava uma afronta e desrespeito à autoridade paterna.

Òrúnmìlà exigiu que ele dissesse as mesmas palavras dos irmãos, mas ele se recusou, permanecendo de pé e dizendo:
“Òrúnmìlà, você se veste com a roupa òdùn², eu me visto com a mesma roupa; você empunha o òsùn³ feito de bronze, também tenho o meu cajado de bronze; suas sandálias são de bronze, as minhas também são; você usa uma coroa, e eu também. Assim, uma cabeça coroada não se curva para outra cabeça coroada.”

Diante do que estava vendo – uma total afronta à sua autoridade-,Òrúnmìlà se enfureceu e arrancou o òsùn das mãos de Olówó, o que significava cassação de sua autoridade. Mas não ficou apenas nisso. O fato levou Òrúnmìlà a se retirar do plano terrestre e retornar ao òrun. O resultado foi a fome, a peste, as doenças, a esterilidade, pois Òrúnmìlà representava o princípio da ordem, da sabedoria, da fertilidade. Sua partida levou a Terra a um colapso, ameaçando a extinção humana.


Os habitantes da Terra se viram clamando pela sua volta. Os rios secaram, os doentes continuaram enfermos, as espigas de milho brotavam mas não amadureciam. Sacrifícios foram feitos, mas sem resultado algum.

Pediram que os filhos intercedessem pelo seu retorno a fim de restaurar a ordem das coisas.

Diante disso, os filhos foram até o òrun para pedir que o pai voltasse. Rogaram e recitaram preces de louvores. Mas o pai, mesmo com a decisão já tomada, ordenou-lhes que estendessem as mãos para a frente e deu-lhes os 16 ikin, os coquinhos sagrados de Ifá, dizendo-lhes: “Quando chegarem em casa, se desejarem possuir dinheiro, serão esses ikin que deverão consultar; se desejarem esposas e filhos, serão esses ikin que deverão consultar.”



Fazendo um determinado ritual, Òrúnmìlà reassumiu sua autoridade, colocando-se como a ligação entre o òrun e o àiyé. Deixou de herança aos seus filhos e discípulos o sistema oracular que permite invocá-lo em todos os momentos necessários.


NOTAS:

Ikin: Coquinhos da palmeira do dendezeiro.
Òdùn: Um tipo de traje yorubá com detalhes feitos em palha-da-costa.
Òsùn: Um bastão sagrado utilizado apenas pelos Bàbáláwo, símbolo de uma divindade conhecida pelo mesmo nome. É usado como um cajado e sempre posicionado ereto e colocado de pé apoiado numa parede.


Fonte:

Livro “Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento”, de José Beniste
Fotos blog: Ìyálòrìsà Fernanda T’Òsún Doko

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