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O MENINO, OGUM E A LUA


 Ele era menino. Contava uns sete anos de idade e gostava de soltar pipa ao entardecer. A avó brigava, os pais brigavam, mas ele repetia o ritual e entrava cabisbaixo. O pai ajeitava o óculos na ponta do nariz e pigarreava.

- Já disse que não alcançarás a Lua!
O garoto retrucava baixinho:
- Não é a Lua. É o Santo...

O mês de abril de 2021 chegou como o do ano anterior, mas havia nas pessoas uma coragem diferente. E o menino continuava a correr para o quintal e empinar a pipa todo final de tarde.
A mãe já não ligava mais. O pai esquecera de pigarrear. Passava o tempo com o óculos grudado no rosto para acompanhar as notícias da tevê.

A avó acordou um dia tossindo muito e com febre. O menino olhou com espanto a correria dos pais. Eles passaram o dia fora e retornaram sem ela no finalzinho da tarde.
- Cadê a vó?
A mãe chorava. O pai pigarreava.
- Cadê a vó?
- Ficou internada, meu filho, por conta dessa doença. - Respondeu o pai com pesar.

O menino apanhou a pipa. Refez a rabiola com papel de seda vermelho e foi para o quintal. Durante seis dias cumpriu o mesmo ritual, enquanto acompanhava a tristeza dos pais. Sabia que a avó tinha poucas chances de continuar viva.

No sétimo dia, ouviu fogos quando o relógio marcou meia noite. Silenciosamente, saiu do quarto, apanhou a pipa com rabiola carmim, fez o sinal da cruz e colocou-a no ar.

A Lua parecia prestes a parir esperança de tão cheia que estava. O menino deu linha até ficar apenas com um pequeno nó na lata de alumínio. A pipa bailava à frente da Lua. Com olhos de fé, o pequeno viu um Cavaleiro delineado bem no centro da luz prata. Ele ajoelhou e rezou.
- Essa pipa é sua, meu São Jorge! É sua, meu Pai Ogum! Mas traga minha vó de volta!

De joelhos, adormeceu e só despertou ao ouvir o telefone tocar. Seis horas da manhã. Fogos, clarins, pássaros. Ele entrou em casa com o coração acelerado.
- Que foi, mãe?
- Sua avó, meu filho! Sua avó está curada! Ela venceu a batalha!
O menino sorriu.
- Quem lutou por minha vó foi São Jorge, mãe! Foi meu pai Ogum! E ele, mãe, vence qualquer batalha!
O pai acordou num sobressalto. Pigarreou contente com a notícia. Arrumou o óculos. Reparou que o filho só tinha nas mãos a lata de alumínio.
- Cadê a pipa? Perdeu?
- Não. Deixei na Lua. Lá mora um Ogum menino também!

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